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CITAC 03
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Citações retiradas do livro "As Escolas de Samba do Rio de Janeiro", de Sérgio Cabral (1996).
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O “pequeno carnaval” era constituído pelos agrupamentos formados pelas camadas mais baixas da população – os cordões, os ranchos, os blocos e, mais tarde as escolas de samba. (Cabral, 1996, p. 24).
Não oferecia o que poderíamos chamar de síncopa carnavalesca aos foliões que desejassem andar enquanto brincavam o Carnaval. Foi o que perceberam os jovens sambistas do Estácio, interessados na criação de um bloco carnavalesco que sairia pela cidade cantando as suas músicas, ao qual dariam o nome de Deixa Falar. (Cabral, 1996, p. 34).
Numa entrevista concedida em outubro de 1966 a Muniz Sodré, para a revista Manchete, ao abordar o nascimento das escolas de samba, Heitor dos Prazeres apresentou-se como um dos fundadores da primeira: (...) A idéia de formação das escolas de samba nasceu aos poucos, na década de 20, durante os carnavais. (...) Finalmente, em 1927 (sic), com Nascimento, Saturnino, Ismael Silva e muitos outros,fundamos a Escola de Samba Deixa eu Falar, a primeira do Brasil. (...). (Cabral, 1996, p. 51).
Deixa Falar, a primeira escola de samba, nunca foi escola de samba. Foi, na verdade, um bloco carnavalesco (e, mais tarde, um rancho), criado no dia 12 de agosto de 1928 (data que me foi fornecida, de memória, pelo compositor Ismael Silva, um dos criadores do bloco) no bairro carioca do Estácio de Sá, e que, por ter sido fundado pelos sambistas considerados professores do novo tipo de samba, ganhou o título de escola de samba. (Cabral, 1996, p. 41).
O Deixa Falar, além de reunir jovens e revolucionários compositores do bairro, pretendia também melhorar as relações dos sambistas com a polícia, já que, sem autorização policial, não tinham o direito de promover as rodas de samba no largo do Estácio e muito menos de desfilar no Carnaval. (Cabral, 1996, p. 41).
No Carnaval 1932, realizou-se o primeiro desfile das escolas de samba da história, na Praça Onze, numa promoção do jornal Mundo Sportivo. O Deixa Falar, por auto-suficiência ou por uma visão equivocada do papel que exercia naquele momento histórico do nosso carnaval, abriu mão do título de escola de samba, optando por assumir a categoria de rancho. O papel do Deixa Falar na história do carnaval só não foi esquecido por que os sambistas jamais negaram o seu pioneirismo como escola de samba. (Cabral, 1996, p. 45).
A verdade, porém, é o talento do pessoal do Estácio não evitou o desastre que foi o desfile do Deixa Falar como rancho. Nem classificação obteve. (Cabral, 1996, p. 49).
Quem inventou o desfile das escolas de samba foi o jornalista Mário Filho. (...) “Mário Filho exigiu que houvesse uma espécie de regulamento, como em todo o concurso. Pimentel determinou tantos pontos para a evolução, tantos para a porta-bandeira, tantos para a bateria, tantos para harmonia e etc.” (Cabral, 1996, p. 59-60).
Aos poucos, os jornais foram deixando o assunto de lado, fazendo crer que tal comissão de sindicância teve o mesmo destino de tantas outras comissões instauradas no Brasil para apurar casos de corrupção. Junto com as notícias sobre as possíveis irregularidade, sumiu também o próprio Deixa Falar. (Cabral, 1996, p. 50).
O último registro sobre a primeira escola de samba foi feito pelo Diário Carioca, em sua edição de 29 de março de 1933, numa nota assinada por Júlio dos Santos e intitulada “União do Estácio de Sá”: “De ordem do sr. presidente da Junta Governativa, participo a todos os componentes dos extintos Deixa Falar e União das Cores que, devido à fusão de ambos, nasceu o bloco carnavalesco União do Estácio de Sá, e que aqueles que pretenderem continuar trabalhando em prol do carnaval do Estácio de Sá (primeira linha) devem procurar o signatário desta, pois as mensalidades começarão a ser cobradas a partir do dia 1º de abril próximo vindouro, devendo os interessados dirigirem-se à antiga sede do Deixa Falar, diariamente, das 19 horas em diante. Grato pela publicação, subscrevo-me com estima e consideração Júlio dos Santos, secretário do bloco União do Estácio de Sá.” (Cabral, 1996, p. 50).
Apesar do fim nada glorioso, o Deixa Falar contribuiu extraordinariamente para o carnaval carioca e para a música popular brasileira. O título de escola de samba a que ele próprio se atribuiu foi adotado pelos blocos carnavalescos que surgiram, espalhou-se pela cidade e deu início a uma forma de brincar o carnaval. (Cabral, 1996, p. 50).
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descriptive note
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As citações do livro "As Escolas de Samba do Rio de Janeiro", de Sérgio Cabral (1996), são fundamentais por revelarem, em primeira mão, o processo de criação do samba moderno e das escolas a partir da visão de seus próprios protagonistas. Elas documentam a passagem do samba de manifestação marginal e perseguida para símbolo de identidade nacional, evidenciando a importância do bairro do Estácio e de seus sambistas na formatação do gênero. Além disso, os trechos destacam o papel pioneiro do bloco Deixa Falar e contradições históricas, como o fato de a "primeira escola de samba" ter se apresentado como rancho em seu primeiro desfile oficial. Por fim, as passagens ressaltam a tensão entre a cultura popular e as forças de repressão e mercantilização, mostrando como as escolas de samba foram espaços de resistência e afirmação cultural.